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CRÍTICA: Caixa revela trajetória pautada pelo gosto pessoal de Nana Caymmi

Pesquisador Rodrigo Faour reuniu canções gravadas pela cantora entre 1960 e 2000 na caixa 'A Dama da Canção'
Roberta Pennafort / RIO - O Estado de S.Paulo

Nana e Gil. Casamento e parceria em raras músicas
como 'Bom Dia'
Nana Caymmi nunca teve pares. A família era íntima de Tom Jobim, gravou LP com ele em 1964 (Caymmi Visita Tom e Leva Seus Filhos Nana, Dori e Danilo), mas ela não fazia o estilo bossa nova. Casada com Gilberto Gil entre 1966 e 1968, não se interessou pelo tropicalismo. “Não sou de grupos, não é do meu feitio. Isso eu aprendi com o meu pai, que era só ele e o violão dele. A bossa nova era para cantoras sem voz, e eu cheguei com esse vozeirão. Na época do tropicalismo, não tinha nenhuma afinidade com aquilo, não tenho estrutura para música nordestina”, ela esclarece.
As escolhas de Nana, que em cinco décadas de carreira acabaram por lhe trazer mais prestígio do que sucesso ou dinheiro, ficam claras com o lançamento da caixa A Dama da Canção. Resultado do esforço de dois anos do pesquisador Rodrigo Faour, que correu gravadoras para conseguir os LPs mais raros e a liberação para a reunião de faixas avulsas gravadas em discos de outros artistas, para novelas ou projetos especiais, a compilação é reveladora de uma trajetória pautada estritamente pelo gosto pessoal.
“Isso trouxe problemas para ela”, analisa Faour, que já desbravou os acervos de nomes como Ney Matogrosso, Beth Carvalho, Elza Soares e Nelson Cavaquinho. “Você olha, por exemplo, a Bethânia, a Gal, a Elis, todas da mesma geração: quantos discos já tinham gravado até os anos 1980? Nana sempre foi uma cantora difícil de ser digerida: tem timbre diferente, nunca teve compromisso com a questão comercial, repertório pautado pelas paradas de sucesso, e ainda tinha o peso de ser filha do Dorival Caymmi...”
Convidado pela gravadora EMI, que detém a maior parte da produção da cantora (da finada Odeon), Faour pensou: “Hoje, quem compra CD quer tudo”. Então levantou tudo sobre Nana: os primeiros 18 discos de carreira, de 1960 a 2000, que foram remasterizados, e mais 41 gravações avulsas, que viraram um CD duplo. Só ficou de fora Academia Brasileira de Música, de 1992. E “tudo” custa caro: R$ 449. A partir do dia 20 estará à venda. 
Estamos falando de Nana Caymmi, e é claro que o tom predominante da caixa é o cinza das dores de cotovelo - no 78 rotações de estreia, em 1960, aos 19 anos, já cantava “Adeus, vivo sempre a dizer/ Adeus, pois não posso esquecer”, versos do pai. Ela adora a piada de que “cantar desgraças” a faz feliz. Mas sempre com elegância; o sofrimento sem contenção, só que sem tombar para o brega - o que não é nada fácil, em se tratando de boleros e sambas-canção.
Entre as faixas avulsas estão alguns registros bem conhecidas em sua voz, como Acalanto (o primeiro estúdio, com o pai, em 60, substituindo a mãe, a cantora Stella Maris, que desistiu), Saveiros (que a revelou para o grande público com o primeiro lugar no 1.º Festival da Canção da TV Globo, de 1966) e Suave Veneno (uma das muitas encomendas para novelas). 
Tem também duetos obscuros, com artistas como João Bosco (Siameses), Herbert Vianna (Hoje Canções) e Milton Nascimento (Sentinela), e músicas que poderiam ter sido eternizadas em sua voz, mas viraram sucesso de outros artistas, como Simples Carinho (gravada por Ângela Ro Ro) e Tema de Amor para Gabriela (Gal Costa). 
Uma loja ou outra ainda tem CDs como Voz e Suor, com César Camargo Mariano (1983), A Noite do Meu Bem - As Canções de Dolores Duran (1994) e sua maior vendagem, Resposta ao Tempo (1998). Mas o LP Atrás da Porta (1977), com diamantes como a música título, de Chico Buarque, Saia do Caminho e Por Causa de Você, feito e lançado quatro anos antes na Argentina pela gravadora Trova, hoje é raridade, assim como praticamente tudo dos anos 1970/1980. 
Mesmo os seguidores de Nana Caymmi, que lotam os esparsos shows, vão se surpreender ao se deparar com as faixas com cores tropicalistas de um compacto de 1967, gravado com os Mutantes e com arranjos de Rogério Duprat, como Alegria, Alegria, Bom Dia (rara composição dela, feita em parceria com Gil), O Cantador e Penúltimo Cordão
“Eu gostava das músicas, adorava os Mutantes, mas participar de movimento era outra coisa. O intérprete tem que ter um cuidado muito grande, ainda mais quando ele canta música para a eternidade, como eu”, explica ainda Nana.
“A caixa não tem só aquelas músicas tristes de amor”, promete Faour, que preparou textos sobre cada CD, uma biografia alentada e entrevistas com Nana e o irmão Dori, arranjador de vários discos. Material de primeira, nada dos encartes descuidados das muitas coletâneas baratas lançadas da década de 1990 para cá.
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